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Chineses em Portugal querem mais investimento no país

 

O presidente da Liga dos Chineses em Portugal, Y Ping Chow, aposta na criação de uma Câmara de Comércio China-Portugal para atrair mais investimento chinês, sobretudo porque Portugal é uma boa porta para investimento em África.

Para Y Ping Chow, há ainda muito caminho para percorrer, no que diz respeito à atração de investimento chinês em Portugal, apesar das apostas que grandes empresas chinesas têm feito em setores como a banca ou a energia.

Em entrevista à Lusa, o líder da comunidade chinesa em Portugal considerou uma câmara de comércio como uma alavanca importante, sobretudo para atrair o investimento de pequenas e médias empresas chinesas (que serão sempre grandes empresas à dimensão europeia) que olham não apenas para o território português, mas também para a capacidade de influência que Portugal tem nos países africanos de língua portuguesa.

Y Ping Chow explicou que é fácil estabelecer essa câmara de comércio em Portugal e que até já falou com o embaixador chinês em Lisboa, que se mostrou muito recetivo à ideia.

A maior dificuldade poderá estar em encontrar interlocutores na China para essa organização, já que implica a sensibilização de um conjunto de empresas que pode ter menos sensibilidade para a relevância desse investimento.

"Mas já falei também com o embaixador português em Pequim e fiquei com a ideia de que este projeto é viável e útil", afirmou Y Ping Chow. "Há o interesse de muitas empresas estatais chinesas para esta câmara de comércio, principalmente as de infraestruturas e de construção", disse o líder da comunidade chinesa.

"Este interesse é um sinal da amizade entre Portugal e a China", considerou, dizendo que "os portugueses aceitam bem o investimento chinês e os chineses sentem-se bem em Portugal".

Mas Y Ping Chow realçou o interesse na capacidade de influência das empresas portuguesas na Comunidade de Países de Língua Portuguesa (CPLP). "Portugal é uma porta da entrada para África. Portugal é importante, mas a CPLP é ainda mais importante", confessa.

Y Ping Chow referiu a recente visita do Presidente da China, Xi Jinping, a Lisboa como um momento importante que ajudou a criar condições para esta nova etapa de relações.

"Com os muitos protocolos que foram assinados nessa visita, acredito que não faltarão empresas chinesas interessadas em apostar em Portugal e nos países de língua portuguesa", disse o empresário chinês.

 

Procura de chineses estabilizou

Y Ping Chow disse que o número de chineses que procuram Portugal para viver e trabalhar estabilizou e que o programa Vistos Gold pode ser mais bem aproveitado para renovar a comunidade chinesa, sobretudo se for capaz de atrair empresários com bons contactos na China que seriam capazes de trazer novas pessoas.

O líder da comunidade referiu-se ainda a um fenómeno que era pouco usual: os empresários chineses em Portugal que começam a investir na China.

"O crescimento económico da China levou alguns empresários chineses a fazer mais investimento na China do que no país para onde tinham vindo", disse.

"Mas Portugal continua a ser um bom país para chineses", afirmou o empresário que pertence à terceira geração de chineses em Portugal e que está na região norte do país desde o início dos anos 1960.

Para Y Ping Chow, o ensino e a divulgação da língua chinesa em Portugal podem contribuir para tornar a China um país mais relevante para os portugueses. "Não podemos esquecer que, dentro de alguns anos, a China será a maior potência mundial e aprender chinês será tão importante como aprender inglês", disse o empresário.

Por outro lado, notou, o facto de os chineses em Portugal estarem cada vez mais a aprender português é igualmente um fator para uma maior abertura da comunidade, bem como para um melhor entendimento entre os dois povos.

 

Mais turistas chineses em Portugal

Y Ping Chow defendeu também que o turismo é o negócio que mais poderá aproximar a China de Portugal, nos próximos anos, pelo potencial de crescimento que revela.

"Os chineses que procuram Portugal para fazer turismo são os reformados e o número de reformados na China está neste momento a aumentar muito", disse.

Os números oficiais referem este aumento de procura, tal como indicam que os chineses são os turistas que mais divisas gastam quando se encontram em Portugal.

Mas Y Ping Chow disse que falta agora convencer esses turistas a passar mais tempo em Portugal.

"Os turistas que nos visitam ficam apenas dois ou três dias. Geralmente, vêm à Península Ibérica num modelo de sete dias e ficam cinco dias em Espanha e dois em Portugal. É preciso encontrar pacotes turísticos que levem esses turistas a passar mais tempo no nosso país", afirmou.

 

Guerra comercial China-EUA não afeta Portugal

O presidente da Liga dos Chineses não se mostra preocupado com a guerra comercial entre a China e os EUA, dizendo que esse conflito não deverá afetar as relações entre chineses e portugueses.

Para Y Ping Chow, a guerra comercial entre a China e os EUA pode ser até uma janela de oportunidade para a Europa encontrar novas rotas de comércio com os chineses.

"A Europa não pode é ir atrás dos EUA, nesta guerra", considerou o líder da comunidade chinesa em Portugal.

“Eu penso que esse conflito comercial não afetará Portugal, até porque os EUA parecem estar a querer abandonar a Europa", disse Y Ping Chow, referindo que estão a criar-se boas condições para novos e mais profundos entendimentos comerciais.

"Agora, essa guerra vai ter repercussões mundiais", admitiu o empresário chinês, reconhecendo que esse fenómeno está também a ter efeitos negativos no crescimento da economia chinesa, que tem abrandado nos últimos anos.

Para Y Ping Chow, as alterações geoestratégicas que decorrem deste conflito comercial terão um impacto reduzido no investimento chinês em Portugal, já que este é um mercado relativamente isolado e pouco permeável a interferências das questões diplomáticas entre a China e os EUA.

Ricardo Jorge Pinto (texto) e André Sá (video)