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Falta de “traquejo” das duas partes nas memórias de primeiro embaixador

 

Na viagem à China logo após o reatamento das relações de Lisboa com Pequim, o diplomata português João de Deus Ramos quase ia parar a Taipé - a primeira de muitas peripécias causadas pela "falta de traquejo luso-sínico".

"Incrivelmente, a minha passagem aérea foi reservada na China Airlines, de Taiwan - iria parar a Taipé", lembrou Deus Ramos, responsável pela abertura da embaixada portuguesa em Pequim, após o reatamento das relações diplomáticas, em 08 fevereiro de 1979, no livro de memórias "Em Torno da China".

Taiwan funciona como uma entidade política soberana, desde que, em 1949, o antigo governo nacionalista chinês se refugiou na ilha, após a derrota na guerra civil frente aos comunistas. Mas Pequim considera Taiwan uma província chinesa e ameaça usar a força caso Taipé declare independência.

Na primeira ida à China comunista de um diplomata português, este desembarcar em Taipé, seria, portanto, mais do que mera quebra do protocolo diplomático: o reconhecimento de que Pequim é o único governo legítimo de toda a China é o pré-requisito e base política para a República Popular manter relações diplomáticas com outros países.

No entanto, aquela foi apenas a primeira "constatação da dimensão” da ignorância portuguesa “em tudo o que respeitava à China”, recordou João de Deus Ramos.

Portugal até já tinha tido uma Legação em Pequim, num edifício alugado em 1903, entretanto demolido, mas após a fundação da República Popular da China, em 1949, as relações diplomáticas foram suspensas.

"Embora pioneiros no diálogo entre o Ocidente e o Império do Meio, perdêramos o traquejo do quotidiano, pois ao longo de décadas, entre nós, os assuntos chineses eram tratados concretamente através de Macau", recordou.

O responsável pela abertura da embaixada em Pequim, então como Encarregado de Negócios, lembrou ainda como nas Cartas de Gabinete assinadas pelo então ministro português dos Negócios Estrangeiros, para serem entregues ao homólogo chinês, o nome oficial da China tinha sido erradamente traduzido a partir do francês.

"Olho para o envelope e não quero acreditar no que leio: o ministério fizera a tradução direta do francês para o inglês, ou seja, de Republique Populaire de Chine, lia-se 'Popular Republic of China'", contou.

O nome oficial da China, em inglês, é People's Republic of China, mas o "erro maçador" não podia mais ser corrigido: as cartas foram entregues já no aeroporto, quando Deus Ramos estava prestes a partir para Pequim.

"Já não havia nada a fazer. Se fosse hoje, talvez; mas em '79 não havia telemóveis, nem computadores nem UPS, e a China era hermética e não tínhamos lá nenhuma estrutura local", descreveu.

Mas a "ignorância", neste caso, era recíproca. Quando tentou enviar um primeiro telegrama para Lisboa, a confirmar a abertura da missão diplomática, o intérprete de Deus Ramos teve de repetir por várias vezes 'Putaoya' (Portugal, em chinês) ao funcionário dos correios centrais de Pequim.

"O funcionário não se lembrava onde era Putaoya, desde 1949 que tal nome pouco se ouvia", escreveu o diplomata.

Licenciado em Direito pela Universidade Clássica de Lisboa, João de Deus Ramos teve uma carreira ligada ao Oriente, e em particular à China. Para além de ser o primeiro diplomata português acreditado na República Popular, como encarregado de Negócios com Cartas de Gabinete, foi membro da delegação portuguesa que negociou com a China a Declaração Conjunta sobre Macau e secretário-adjunto para os Assuntos de Transição do Governo de Macau. Foi ainda administrador da Fundação Oriente, entre 2001 e 2002, e chegou a lecionar nos cursos de estudos chineses das universidades do Minho e Aveiro.

João de Deus Ramos morreu em outubro passado, aos 76 anos. No seu livro de memórias diplomáticas, recordou a China como um país que "não deixa ninguém indiferente" e revela o seu fascínio pela longevidade da civilização chinesa.

"Tenho a convicção de que terminarei os meus dias sem saber exatamente porquê e como a China permanece há mais de quatro milénios sempre a mesma", escreveu.

"A China no seu pior, é o pior que há. Mas no seu melhor é singular e inesquecível", escreveu.

João Pimenta