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A travessia área Lisboa-Macau esquecida pela Ditadura

 

A primeira travessia aérea Lisboa-Macau em 1924, uma atribulada aventura de mais de 16.000 quilómetros, foi ignorada pelo Estado Novo porque um dos seus protagonistas se opôs à ditadura militar e ao regime de Salazar.

"Esta viagem foi apagada da memória portuguesa não porque seja menos importante, que a viagem de Gago Coutinho e Sacadura Cabral. Mas sobretudo porque Sarmento de Beires é um opositor ao regime que se anunciava", considerou à Lusa a investigadora a investigadora Cátia Miriam Costa do Centro de Estudos Internacionais (CEI) do ISCTE, diretora da cátedra de Ibero-América Global e professora da disciplina de China contemporânea e coordenadora do curso China e Extremo oriente

"Apesar de militar, não concorda com a Ditadura militar, nem posteriormente com o Estado Novo, é um homem perseguido durante o período das ditaduras em Portugal", recorda.

Em 02 de abril de 1924, os aviadores José Manuel Sarmento de Beires (1892-1974) e António Jacinto da Silva Brito Pais (1884-1934), partem de Vila Nova de Milfontes, na foz do rio Mira, para uma aventura inédita, dois anos depois da travessia do Atlântico Sul (Lisboa-Rio de Janeiro) por Gago Coutinho e Sacadura Cabral.

Após uma viagem muito atribulada, com inúmeros percalços, e será acompanhada a partir da Tunísia pelo alferes mecânico Manuel Gouveia, que se juntou aos dois aviadores. A partir desta colónia francesa do Magrebe vão atravessar diversos territórios coloniais europeus, no norte de África, no Médio Oriente, na Ásia.

Em 23 de junho alcançam os arredores da cidade chinesa de Cantão após percorrem 16.380 quilómetros com várias escalas e recorrendo a dois aviões, o "Pátria" e o "Pátria II", o primeiro garantido na totalidade por subscrição pública.

O seu companheiro de viagem -- para além do alferes mecânico Manuel Gouveia, que se juntou aos dois aviadores na Tunísia -- não optou pelo posicionamento político de Sarmento de Beires após o golpe militar de 1926. "Brito Pais não está envolvido intelectualmente nem ideologicamente com esse tipo de lutas, no entanto acaba por sofrer do mesmo ostracismo que vem do facto de não se poder reconhecer o seu companheiro de viagem", indica Miriam Costa.

A concretização da travessia, em 1924, também coincidiu com o início do conflito entre o governo da I República na sua fase terminal, e os aviadores ao serviço da Força Aérea.

"Durante a viagem Brito Pais e Sarmento de Beires demonstram a sua solidariedade com os aviadores que estão presos em Alverca. Tinham tentado rebelar-se em protesto contra medidas do Ministério da Defesa. Há uma série de dissensões, e por um lado houve sempre uma tentativa de demonstrarem a sua solidariedade", conta.

A sua receção em Macau foi triunfal, à semelhança da forma como são recebidos em Lisboa, com fanfarra perante uma multidão que os saudou no Terreiro do Paço. Recebem condecorações militares da I República, tornam-se referências nacionais. Após a consolidação do novo regime, com a instauração do Estado Novo por Salazar, acentua-se o ostracismo a um dos heróis da grande viagem, como tinham sido designados pela imprensa da época.

"Sarmento de Beires é sempre descrito nos jornais como uma figura de sensibilidade. Ambos são aventureiros, mas o contrataste entre ambos resulta. Brito Pais é mais pragmático. Na descrição física e nas fotografias que são publicadas, Sarmento de Beires aparece mais alourado, o cabelo mais despenteado, é criada esta imagem, apesar de as suas fotos na imprensa serem a preto e branco", destaca.

Sarmento de Beires poderia ser definido como o "intelectual", esclarece a académica, autora de publicações que incluem estudos sobre Macau. Pelo contrário, Brito Pais terá optado por uma atitude mais discreta. "É muito interessante que haja esse pendor ligado a essa sensibilidade literária. A verdade é que Sarmento de Beires se dava com muitos intelectuais, e isso explica também a publicação na Seara Nova", assinala em referência ao livro de poesia do major-aviador "Sinfonia do Vento", inserida da campanha de fundos para a concretização da viagem e distribuída nesse período, com uma tiragem de 1.000 exemplares.

"Deve sublinhar-se a adoção pela Seara Nova, como uma revista de cultura, deste projeto, uma publicação que depois será conotada com as oposições ao Estado Novo. Sarmento de Beires vem muito desse ramo e tinha uma vida intelectual muito intensa", salienta. Os dois militares estiveram destacados em França durante a I Guerra Mundial, onde aprenderam a pilotar aviões, e aí reforçaram a sua amizade. Mas com personalidades distintas, insiste Miriam Costa.

 

Um resistente à ditadura

“Sarmento de Beires faz tudo aquilo que um oficial do exército faria na sua época. Combateu na I Guerra Mundial, tem uma carreira irrepreensível em termos militares, mas em paralelo tem este interesse pela literatura e também pelas ideias políticas, e é isso que faz dele um opositor ao regime. Sempre se opôs ao golpe militar e ao salazarismo", acentua.

O antigo aviador do grupo de Esquadrilhas da Aviação República, natural do Porto, autor de romances e do livro de poemas “Sinfonia do Vento”, e o primeiro a efetuar uma travessia noturna do Atlântico Sul em 1927 no "Argos", será demitido das Forças Armadas e forçado ao exílio.

Antes das sentenças, Sarmento de Beires esteve envolvido em tentativas de derrube da ditadura. Foi preso em Lisboa em 1933 e condenado no ano seguinte a sete anos de desterro, com perda dos direitos cívicos durante dez anos.

A sua condenação e detenção na prisão do Aljube coincide com a morte do seu companheiro de aventura Brito Pais, aos 49 anos, vítima de acidente aéreo em 1934.

"Foi impedido de comparecer no funeral, assiste à passagem do cortejo fúnebre a partir da prisão. Deixam-no ver através das grades, mas não o deixam descer. Foi algo que o marcou, depois escreve sobre isso", indica a investigadora.

Mas Sarmento de Beires acabará por se fixar no Brasil durante alguns anos, onde mantém intensa atividade de jornalista, escritor, tradutor e cronista. Em 1951 foi amnistiado e integrado na reserva com o posto de major, e em 1964 recebeu o título de Comendador da Ordem do Império. Mas nunca figurará nas notas da moeda nacional, como sucedeu a Gago Coutinho e Sacadura Cabral, celebrados nas antigas notas de 20 escudos.

Sarmento de Beires morre na cidade do Porto em 08 de junho de 1974, aos 81 anos. Em Vila Nova de Milfontes ainda prevalece um monumento ao avião "Pátria", que recorda a façanha aérea dos dois militares.

 

Os dois heróis da aeronáutica

A travessia aérea Lisboa-Macau em 1924 destinou-se a colocar Portugal no caminho das potências europeias, dos Estados Unidos e do Japão, que nessa época já arriscavam longas travessias.

"Esta viagem tem internacionalmente um grande peso, porque é a conquista dos ares por todas as potências europeias em particular Reino Unido, França e Itália, Estados Unidos e Japão, que na altura estavam a tentar empreender a viagem de circum-navegação, havia um grande interesse", prossegue.

"A imprensa aproveita para designar a viagem como um elemento de caráter nacional, mas também para demonstrar que os portugueses estão a seguir a tendência das outras potências, e ainda realçando muito o aspeto de os portugueses irem apenas com um avião”.

A rota impôs escalas na Líbia, Egito, Síria, Iraque, Irão e Índia, onde o "Pátria" aterra num deserto com danos irreparáveis devido a uma tempestade. O governo português autorizará a compra de um segundo aparelho, o "Pátria II", que fará a etapa final com paragens na Birmânia, Tailândia, Vietname, e por fim nos arredores de Cantão, onde efetua nova aterragem forçada. No dia 23 de junho de 1924 a viagem estava terminada.

"Era a época de monção, apanham uma tempestade, com ventos fortes... Mas são recebidos efusivamente em Macau, para onde foram transportados de barco", indica Cátia Miriam Costa.

A imprensa portuguesa exulta com o feito: "Audácia, glória, ases da aviação, ases gloriosos, bravos aviadores, extraordinárias dificuldades, heroicos aviadores", são alguns dos adjetivos propagados pelos jornais, com alguns envolvidos no patrocínio da aventura, caso do Diário de Lisboa, o Diário de Notícias, mesmo um jornal sul-africano.

As condições da viagem e as privações no decurso trajeto enaltecem o feito dos dois amigos. "Sarmento de Beires e Brito Pais conhecem-se durante a I Guerra Mundial, pelo menos tornam-se grandes camaradas, fazem o 'brevet' em conjunto em França. Aprendem e voar em França, combatem em França, e trazem esse conhecimento para Portugal", recorda a investigadora.

Mas as suas personalidades eram distintas. "Brito Pais é designado pela imprensa portuguesa como o pragmático da viagem, enquanto Sarmento de Beires é um homem mais ligado às letras, um apaixonado, também com fortes convicções ideológicas que não encontramos em Brito Pais", precisa.

 

Avião por 'crowdfunding'

O "Pátria" tinha sido adquirido por subscrição pública, "o que chamamos hoje de 'crowdfunding'", e decorreram várias atividades para garantir a quantia necessária.

"Organiza-se um 'rally' em Lisboa, em que a cidade é fechada e vêm atores, atrizes, gente muito conhecida nos carros para atrair público e fazer a subscrição. A revista Seara Nova também participa com a venda de uma edição completa dos poemas de Sarmento de Beires intitulada 'Sinfonia do Vento' e considerada de luxo para a época. Foram vendidos 1.000 exemplares, o que é representativo numa população de analfabetos como é a portuguesa em 1924. Tem um grande sucesso, a edição esgota", recorda.

A perseverança dos dois aviadores e do seu mecânico foi um fator determinante para a concretização da odisseia aérea. "Geralmente esses empreendimentos eram feitos com vários aviões na esquadra para quando um tivesse problemas haver outro de substituição", especifica.

"Estes dois portugueses e o seu mecânico seguem com um único avião, que em diversas ocasiões não consegue levar os três, com os mantimentos, o peso do combustível... muitas vezes o mecânico não pode seguir com os aviadores, tem de ir por terra e quem chegasse primeiro esperava, dependia das adversidades que encontrassem". O acompanhamento pela imprensa também revela aspetos curiosos, e também decisivos para a concretização da longa travessia, 16.380 quilómetros percorridos em 115 horas e 45 minutos.

"Do lado de lá do Atlântico o feito também é muito reconhecido, há um pedido para que os conterrâneos portugueses no Brasil se unam à subscrição, que na Índia portuguesa por onde vão passar os dois aviadores se unam à subscrição, que os portugueses residentes na China e Macau se unam à subscrição, há sempre esta tentativa", salienta. As notícias iam chegando através das mensagens que os aviadores remetiam durante as escalas.

"Enviavam telegramas, os jornais iam sabendo o que se passava e têm descrições incríveis. Por exemplo, dentro do avião não conseguiam controlar a temperatura, tinham temperaturas muito baixas ou extremamente altas, tinham que voar e manter-se conscientes naquelas circunstâncias. É a grande epopeia logo a seguir à epopeia da travessia do Atlântico durante o dia, de Gago Coutinho e Sacadura Cabral, em 1922", destaca.

No âmbito das relações entre Portugal e a China, dois países em convulsão nesse período, e dos contactos entre Lisboa a possessão portuguesa de Macau, esta viagem representou uma superação.

"Foi a capacidade de ligar os dois pontos por via aérea. A viagem por mar era muito longa, e esta façanha tinha um efeito tecnológico importante e de descoberta científica importante", conta. No entanto, a aventura também colidiu com um momento de tensão entre Portugal e o colosso asiático.

"Há uma certa tensão que está patente na definição das fronteiras marítimas de Macau, e esta viagem também pretendia assinalar que havia uma capacidade de superação desses problemas, e de união através de um feito, de uma conquista. É a forma como é muito interpretada pelos jornais em Macau, uma vitória portuguesa, mas também com outros significados, uma viagem de conhecimento, porque não significaria mais que isso", conta.

Num Portugal em crise de regime, o acontecimento assume particular significado, porque gera nova exaltação em torno de uma I República que caminhava para o fim com o golpe de 1926 e a instauração da ditadura militar.

"Para Portugal teve um grande significado, para Macau tem o significado do encurtamento da distância, sobretudo para quem lá vivia e estava dependente da administração portuguesa", conclui a académica.

 

Pedro Caldeira Rodrigues